Insegurança legal reduz crédito e trava crescimento
Fonte: Valor Econômico - SP / Agência Sebrae de Notícias
Matéria publicada em 22.06.2004

Sheinkman, da Universidade de Princeton: "judiciário moroso restringe
 o acesso ao crédito para os mais pobres "


O ambiente legal brasileiro fomenta a informalidade e a especulação. Mais do que isso, a insegurança jurídica, torna-se uma trava ao crescimento econômico, pois mina o crédito. Economistas reunidos, ontem no Ibmec-SP, durante o seminário "Ambiente legal e crescimento", convergiram na opinião de que o país necessita de mudanças microeconômicas para voltar a crescer com sustentabilidade.

O economista José Alexandre Sheinkman, professor da Universidade de Princeton, apresentou
uma estimativa de que o Brasil possui um mercado informal 40% superior ao de países com a
mesma faixa de geração de riqueza. A razão para tal disparidade encontra-se na falta de acesso
ao crédito por firmas de pequeno porte e pessoas de baixa renda. Burocracia e impostos também são fatores apontados como indutores de informalidade.

O economista aplica sobre o Brasil resultados de estudos feitos na Itália que mostram que
distritos onde a justiça é morosa há menor divisão do estoque de crédito entre ricos e pobres.
Sem a segurança de que garantias serão endossadas pelo judiciário, os riscos se tornam maiores
e o crédito, restrito.

Sheinkman citou uma pesquisa do Ministério da Fazenda cujo resultado mostra que apenas
6% dos negócios informais tiveram algum tipo de empréstimo como capital inicial. "O crédito
é capital de mais de 50% dos novos negócios nos Estados Unidos", compara. As principais
fontes no Brasil são a poupança - 20% do capital - e a multa de demissão (13,4%).

O exemplo italiano de relação entre judiciário ineficiente e falta de crédito serve ao Brasil,
diz o economista, por conta do que ele chama de "ativismo do judiciário". Por "ativismo"
pode-se entender o grande número de liminares presentes nas decisões judiciais do Brasil,
o que cria dúvidas sobre o cumprimento de contratos.

O problema da informalidade está diretamente ligado à queda da produtividade na economia brasileira, frisou Sheinkman. Em última instância, essa relação afeta o Produto Interno Bruto
(PIB). Países com maior informalidade apresentam menor crescimento do PIB, acrescenta.

Ampliando o impacto deste efeitos sobre os investidores privados, o economista Eduardo
Giannetti, professor do Ibmec, afirma que um ambiente legal instável abre brechas para que
haja "especulação" nos negócios. Assim, o resultado de longo prazo é abandonado por
práticas que visam o lucro imediato.

"Precisamos trocar os riscos espúrios, originados em um arcabouço legal não respeitado, por
riscos reais, típicos de uma atividade no mercado", comentou Giannetti. Ele afirma que o
Estado brasileiro mistura inoperância, por não suprir as necessidades básicas da população,
e "ativismo voraz" ao se apropriar, via tributos, de grande parte da renda nacional .

Algumas medidas microeconômicas que estão sendo tomadas pelo atual governo foram consideradas positivas para aumentar a estabilidade jurídica. O ex-diretor do Banco Central e economista Ilan Goldfajn elogiou a Lei de Falências, já aprovada no Senado Federal.
O professor da Fundação Getúlio Vargas (FGV) Aloísio Araújo compartilha da opinião. Segundo
ele, o dispositivo que prevê a execução da garantia real antes do pagamento a Receita Federal
é um grande avanço.

O secretário de política econômica do Ministério da Fazenda, Marcos Lisboa, pontuou que,
seguindo o exemplo de países desenvolvidos, é importante que o quadro regulatório esteja em
constante atualização. Para ele, a mudança nas variáveis microeconômicas brasileiras "será
longa e trabalhosa". "Precisamos de paciência, pois reformas apressadas podem mais
atrapalhar do que ajudar".

Fonte: Valor Econômico - SP / Agência Sebrae de Notícias