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"A
honestidade é inviável no Brasil"
Ex-secretário
da Receita Federal ataca o excesso
de tributos e diz que a carga fiscal de quase 40% do
PIB empurra as empresas para a
ilegalidade |
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"A honestidade é inviável no
Brasil"
Ex-secretário da
Receita Federal ataca o excesso de tributos e diz que a
carga fiscal de quase 40% do PIB empurra as empresas para
a ilegalidade

Por Tina Evaristo e
Hugo Studart
Osíris
Lopes Filho é responsável por uma façanha. Nos dois anos
em que foi secretário da Receita Federal, entre 1993 e
1994, ele aumentou a arrecadação do governo em 50%. Até
aí, nada demais, pois seu sucessor, Everardo Maciel,
multiplicou a arrecadação por cinco. O feito de Osíris foi
arrecadar mais sem aumentar a carga
tributária. Recebeu a carga em 22% do PIB e a
entregou do mesmo tamanho. Conseguiu isso porque o País
cresceu. “O que está acontecendo no Brasil de hoje é o
estrangulamento das empresas”, disse à
DINHEIRO. “A carga fiscal este ano será de 40% do PIB”,
alerta. Aos 63 anos, professor do curso de pós-graduação
em Direito Econômico da Fundação Getúlio Vargas, Osíris se
tornou um homem rico com seu escritório de advocacia
tributária para grandes empresas em Brasília. Seu maior
lazer é fumar sem parar. Em duas horas de entrevista à
DINHEIRO, consumiu sete cigarros.
DINHEIRO
– Os empresários têm razão quando reclamam da atual carga
tributária?
OSÍRIS LOPES FILHO – É
claro! Nosso sistema tributário é atrasado e doentio. Não
vamos crescer enquanto o País mantiver essa política
tributária de baixa qualidade. A carga está alta, as
empresas não estão conseguindo pagar, a sonegação é
absurda e, no pior dos sintomas, a renda do brasileiro
está arrochada. O resultado é que os contribuintes não
conseguem consumir e os empresários não conseguem poupar
seus lucros para fazer investimento. E a tributação
caótica é a maior responsável por essa bagunça. O sistema
está pressionando em excesso as classes de renda baixa,
limitando a poupança interna e restringindo o consumo. Sem
consumo e aumento de produção, não há crescimento. Hoje,
se comemora um aumento de 0,5% no crescimento do Brasil,
mas temos que crescer em torno de 8% a 10%. Na minha
opinião, o sistema tributário, hoje, é indutor à
sonegação, dada a carga tributária absurda. Seguramente,
neste ano, a carga tributária vai chegar a 40% do PIB.
DINHEIRO
– Mas o governo alega que a arrecadação é do tamanho das
necessidades do Estado.
LOPES FILHO – É e não é.
O governo esquece de confessar que a maior parte do
dinheiro arrecadado não vai para investimentos nem para os
programas sociais, mas sim para honrar o serviço da
dívida, que já está em R$ 1
trilhão. Está ficando impossível ao governo prestar os
serviços públicos e ao mesmo tempo pagar essa dívida
fantástica. Principalmente fixando taxas de juros tão
elevadas.
Da forma como
está, o sistema está praticando o que chamo de usura
heterodoxa. O governo arrecada para pagar os credores e
esquece que sua função é prestar serviços públicos.
Perdeu-se a noção de que o governo é um prestador de
serviço público essencial.
DINHEIRO
– O sr. vislumbra alguma saída?
LOPES FILHO – Só vejo uma
saída para esse impasse, e é política. O governo precisa
aproveitar um bom momento psicológico – a aprovação dessa
Lei de Falências pode servir – para chamar os banqueiros e
negociar uma baixa dos spreads bancários. Também pode
dizer aos credores internos da dívida pública que é
preciso renegociar. Dependendo de como se faça isso, pode
soar como pacto de crescimento e não como calote. Basta
fazer uma proposta razoável.
DINHEIRO
– Como quebrar a fórmula de aumentar a arrecadação do
Estado sem ter que elevar impostos?
LOPES FILHO – Dá para
fazer isso com um conjunto de medidas. Fala-se muito em
aumentar a fiscalização, mas pouco se faz para melhorar
a administração tributária, que é
muito falha. No Brasil o contribuinte fica muitos
anos praticando irregularidades. Quando se descobre,
termina-se estipulando uma quantia quase que impagável.
Prova disso é que já há 400 mil empresas
no Refis. Se for grande, a
empresa protela o pagamento por dez anos até não existir
mais.
DINHEIRO
– Como se pode fazer o sistema funcionar?
LOPES FILHO – Primeiro, é
preciso um governo exemplar, que não
seja corrupto, que não tenha desperdícios e seja
competente. A população precisa sentir-se integrada com a
ação do governo, principalmente na realização dos gastos,
que precisam atender às necessidades coletivas.
Atualmente, isso não ocorre no Brasil. Há muito
desperdício no governo. Há também gastos desnecessários
para se adquirir voto no Congresso para se passar emendas.
Por isso ninguém se sente confortável para
pagar impostos.
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“Palocci é um
conformista que nada fez para
reduzir impostos” |
DINHEIRO
– A reforma tributária que o governo enviou ao Congresso
foi boa?
LOPES FILHO – Não, de
forma alguma. A reforma tributária tem sido um veículo
mobilizador da opinião pública que, no meu entender,
deveria racionalizar a anarquia do sistema, simplificar as
incidências e, finalmente, organizar toda a legislação
sobre o tema. Mas a reforma, tradicionalmente, tem sido
realizada pelos governos com o objetivo de aumentar a
arrecadação. Essa reforma enviada para o Congresso encerra
uma brutal elevação da carga tributária do País, e vai
aumentar ainda mais com a incidência do PIS e da Cofins
sobre as importações.
DINHEIRO
– Mas o governo alega que alterações como
a da Cofins vão melhorar a
situação do sistema produtivo.
LOPES FILHO – A verdade é
que este governo continua recorrendo à linha básica de
aumentar a carga das tributações indiretas, de
contribuições e impostos como a CPMF e a Cide. São
tributos pagos pelo empresário mas
acabam absorvidos pelo povo. Note que mais de 60% da
arrecadação federal vem das contribuições. No Brasil, o
governo se aproveita do fato de o povo só reclamar de
impostos diretos como Imposto de Renda, IPVA, IPTU. Os
outros ficam embutidos no preço final, e a população não
vê.
DINHEIRO
– O secretário da Receita Jorge Rachid diz que tem feito
justiça tributária quando não corrige a tabela do Imposto
de Renda. Ele tem razão?
LOPES FILHO – Ele está
usando uma outra linha básica de aumento de arrecadação.
Essa estagnação das tabelas, numa economia inflacionada,
significa que o contribuinte vai pulando de uma classe de
rendimento, de forma progressiva, para outra classe,
aumentando a arrecadação, tanto da pessoa física como da
jurídica. O sistema está doentio, insisto nisso.
DINHEIRO
– A máquina do governo é grande demais?
LOPES FILHO – É um
monstro. O Executivo federal é enorme. Cresceu
fantasticamente em Brasília. A cúpula do governo está
exagerada. A Capital deveria servir para fixar apenas as
diretrizes e fazer os controles, não para a execução.
Executar políticas públicas via Brasília é muito caro num
País com as nossas dimensões. A saída é descentralizar
tudo. Um exemplo é a cobrança dos impostos rurais. Como
fiscalizar 9 milhões de
proprietários rurais? Só os municípios conseguem. O
governo federal só deveria fiscalizar os 10 mil
latifúndios, mesmo assim porque precisa promover a reforma
agrária do outro lado.
DINHEIRO
– Como se pode construir um sistema mais justo?
LOPES FILHO –
Essencialmente, o sistema tributa a produção em vez de
tributar a renda, por isso é de baixa qualidade.
Contribuição sobre lucro líquido, ICMS, PIS, Cofins, tudo
isso é tributação de produto. O sistema não se importa se
a empresa teve lucro ou prejuízo; simplesmente tributa. É
preciso mudar, mas as mudanças têm que ser gradativas e
prudentes para não quebrar o Estado. Não adianta querer
fazer um milagre. É preciso, primeiro, ter a vontade de
mudar, coisa que este governo já demonstrou não ter.
O presidente Lula, o ministro
Antônio Palocci, estão todos muito conformistas e
submetidos a um determinismo catastrófico. Têm medo de
fazer.
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Pedro Agílson |
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“Os países que taxaram
demais
o setor de cerveja quebraram a
sua indústria” |
DINHEIRO
– Até que ponto é verdade a tese de que rico não paga
muito imposto?
LOPES FILHO – Também acho
isso. Quando fui secretário da Receita, mandei começar a
fiscalização pelos ricos. Era uma ação de marketing
efetiva e eficiente. Os fiscais ficaram todos assustados,
já que não tinham o hábito de incomodar as elites. Peguei
quem tinha iate e avião. Alguns mostraram as notas fiscais
orgulhosos. Então fomos checar se
tinham renda pessoal declarada para comprar o iate.
Daí batemos em suas residências
para verificar se o motorista e a empregada estavam
registrados como funcionários das empresas. E o aluguel?
Novo rico não tem casa própria, mora tudo de aluguel em
nome da empresa. Essa foi uma pequena amostra do sistema
injusto no Brasil, no qual os empregados da classe média
são os que mais pagam impostos. As megaempresas costumam
ter esquemas para não serem efetivamente fiscalizadas. As
pequenas estão na informalidade. São as médias que estão
pagando o pato.
DINHEIRO
– É possível ser um empresário exemplar no atual sistema
tributário?
LOPES FILHO – A
honestidade está ficando inviável. Para sobreviver, a
pequena empresa evade e a grande empresa usa o preço de
transferência. A multinacional, por exemplo, costuma fazer
isso de duas formas. Ao importar uma mercadoria que vale
US$ 100 da matriz, registra pagamento de US$ 200, mandando
para o exterior um acréscimo de US$ 100. Na exportação,
alega que um bem vale US$ 50, quando na verdade o preço é
US$ 100. No caso de empresas que têm somente fornecedores
internos, parte-se para a evasão pura e simples. Deixa-se
de pagar, cria-se caixa dois, frauda-se despesas e notas
fiscais. A grande empresa tem instrumentos muito mais
sofisticados para sobrevivera à elevação de custos do que
as pequenas e médias. Pode-se fazer registro de custos
fictícios, uso de notas fiscais fictícias, declaração de
bem que não foi comprado, abertura de
empresas laranjas para praticar determinada
atividade durante um prazo limitado. Depois, fecha-se a
empresa. Quanto maior é a carga, mais sofisticados viram
os instrumentos de elisão.
DINHEIRO
– Alguns setores estão com a carga declaradamente alta,
como cigarros e bebidas. Como eles sobrevivem?
LOPES FILHO – Há uma
campanha muito grande contra cigarros e cervejas. Os
países que estabeleceram um sistema de tributação penal
tiveram grandes distorções. O exemplo mais clássico é o
Canadá, que colocou uma tributação elevadíssima. Isso
quebrou a indústria e o país foi inundado com o produto
norte-americano. No Brasil, isso ocorre também. Todo o
norte do Brasil está invadido por esse descaminho e as
empresas brasileiras estão perdendo mercado.
DINHEIRO
– Os grandes lucros dos bancos têm alguma relação com o
sistema tributário?
LOPES FILHO – Sim, no
Brasil você tem um paraíso para o rendimento do capital.
Na minha opinião, ainda é um resquício da sociedade
escravocrata do século 19, como se o trabalho devesse ser
explorado. Há um claro privilégio para os rendimentos
obtidos do capital. A cada bilhão de lucro,
o banco paga R$ 150 milhões,
quando deveria pagar R$ 250 milhões.
DINHEIRO –
Esse governo fez algo de efetivo para mudar essa situação
que o sr. define como de
anarquia tributária?
LOPES FILHO – Nada, só
agravou. O governo está aumentando a carga tributária
fantasticamente, não melhorou a racionalidade e mentiu
quando disse que ia reduzir a carga tributária. Prometeu
realizar uma coisa e fez outra, totalmente distinta.
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